Boas Vindas

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domingo, 27 de junho de 2010

O ser pessoa em Martin Buber e Emmanuel Mounier (dos meus escritos monográficos)



Martin Buber é um filósofo recente e com um pensamento muito atual. Judeu por credo, desenvolveu seu pensamento com a influência da mística judaica misturada com a influência do pensamento existencialista. Desta maneira, a filosofia buberiana se apresenta entre existencialismo e religiosidade, desenvolvendo seu pensamento basicamente em torno do homem que existe em relação, aflorando num personalismo religioso.
Em sua concepção, o homem é um ser que se relaciona sempre com o mundo. Ele não consegue se pensar sem um ambiente, sem um mundo. Ele precisa de um locus para se encontrar, e esse processo relacional se dá mesmo que ele não perceba. Este mundo não deve ser entendido, todavia, somente como um lugar que está à mão dos sentidos, possível a eles, este mundo é um lugar de significância para o homem, um lugar que adquiriu um sentido para o homem devido a sua vivência nele. Assim, o homem é um ser-em-um-mundo, e não há como pensar-se de outro modo. Neste ato de significar o mundo o homem molda-se enquanto atitude que se dirige ao mundo dando-lhe um valor significativo. Esse valor significativo, contudo, não é um idealismo, pois para ser valor haverá a necessidade do eu que doa o sentido, do mundo que é o portador do sentido e da relação entre um e outro, não sendo este valor meramente algo do sujeito.
O eu se reconhece como existente enquanto se reconhece neste mundo com o qual se relaciona, e desta forma realiza-se enquanto ser. Desta maneira, não cabe ao campo racional o pensar sobre si, mas à intuição de sua existência, porque o eu não é uma colocação racional da essência, mas é vivência de si no mundo.
Seguindo o pensamento buberiano, que mistura mística e filosofia, o homem foi criado pelo dahar, que para o nosso filósofo é a plenitude dinâmica do Ser criando, e não pelo lógos estático, sendo, portanto, este homem portador da palavra vivificante que é motora. O homem desvela o Ser pela sua palavra, que é sempre dirigida a alguém, e por isso torna-se criadora, fazendo do Ser uma vivência dialógica.
Voltamos ao homem como atitude! Ele é atitude pois, por meio do Ser comunicado pela palavra-viva, torna-se comunicante do sentido de Ser. Sua palavra é criadora de Ser, a partir do momento em que o eu tira o outro do sem-sentido do nada de mundo sem significância. O eu é atitude como uma palavra que dá princípio a uma relação.
Diante do mundo significado, temos duas posições atitudinais: ou o eu se relaciona com o mundo como significativo e por isso escapa ao conceitual, ou o mundo se torna um lugar possível a um conceito racional, e por isso objeto do pensamento de um sujeito. No primeiro caso, Buber trata que esta relação é um Eu-Tu, pois o mundo passou do nada ao significativo vivencial. No segundo, a relação é Eu-Isso, em que o mundo tornou-se um conceito racional (objeto de pensamento) ao homem, longe de ser vivido. Assim, as relações se dão nas palavras-princípio de Eu-Tu ou Eu-Isso, dependendo de como o mundo está sendo afrontado pelo sujeito.
Com a palavra-princípio (isto é, a relação de significância que há entre eu-mundo) Eu-Isso, o eu é sujeito de conhecimento do objeto mundo, passando o mundo a ser dependente da existência do eu, havendo uma fusão entre sujeito e mundo. Dá-se uma comunicação estéril, onde somente o eu tem vez e voz, um monólogo em que um fala – o eu – e o outro escuta e acolhe que o eu disse – o mundo. Já na palavra-princípio Eu-Tu o que reina é o diálogo, o encontro afrontado, não sendo o mundo reduzido a um objeto pensado, um noema do pensamento, mas algo que, por ter significado, é por si só, mostrando, com isso, que o outro não se conhece, mas se dialoga com ele. Para conhecê-lo deveríamos reduzi-lo a um fruto de pensamento, objetivando-o. Dialogando, deixamo-lo ser o que é, mas também não somos indiferente ou seus possuidores de sua existência. Portanto, fugindo das conceituações, encontramos a vivência, e nesta o Ser, que escapa às conceituações, sendo-o simplesmente.
Já vai ficando claro, então, que o homem só é quando se relaciona Eu-Tu, pois não está buscando conceituações, mas vivência do Ser. E quanto mais o homem se aproxima do Eu-Isso, mais conceitua e por isso mais se afasta de Ser, embora nunca deixe de ter em si um Tu Eterno, possibilitando-o que busque um outro com um intuito de Ser o que ele é. Assim, o Eu-Tu está sempre em estado de latência no Eu-Isso, e por isso o Eu não deixa nunca de ser, mas ele é, nesta relação, parcialmente e não plenamente. E quando falamos deste Tu Eterno chegamos ao personalismo religioso de Buber, pois este Tu Eterno só pode ser o Divino que se encontra no íntimo do homem. O Divino é o primeiro a se relacionar, visto que Ele que se dá ao homem a fim de se relacionar com ele, num processo em que o Divino sempre escapará ao conhecimento humano do Eu. Ele não é uma apropriação, mas é Realidade Pura. Portanto, baseado nesta constatação, o relacionamento Eu-Tu, que tem como exemplo a relação Eu-Tu do homem com o Divino, sempre será uma relação transcendente ao tempo e ao espaço contrariando o que disse Kant, em que estas seriam condições sine qua non para o conhecimento, sendo para Buber, estas geradoras da relação Eu-Isso.
Para ser pessoa, e já trazemos este subtítulo à tona, o homem deve viver o relacionamento Eu-Tu, porém esta vivência é um caminho. Nunca ninguém será plenamente Eu-Tu, mas deverá sempre lutar para não ser um Eu-Isso porque a pessoa vive no tempo e no espaço e tem facilidade em conceituar tudo. Para exemplificar melhor, usaremos de efeitos gráficos para se entender melhor.




Concluímos, com o auxílio do gráfico, que há mais Ser na Relação Eu-Tu que na Relação Eu-Isso, pois esta última tem sentido contrário ao Ser. O homem é um ser distanciado do Ser, para reconhecer que o seu existir só é enquanto relação com o Tu, gerando pessoa. Devendo ser a sociedade baseada na relação dialógica.




É fato que o pensamento personalista floresceu de maneira concomitante com o existencialismo e por isso este influencia aquele. Surgem em um período em que o homem, devido ao conceito de ser um ser racional, acha-se dono do mundo e no direito de tudo fazer. Só que aparece uma contradição: por que o homem, tão racional como se diz, tem causado a guerra? O existencialismo e o personalismo mostram-se contra o conceito e em favor da vivência. Antes de conceituar-se como racional, seja homem. Porém, o existencialismo ateu deixa-se cair num abismo do trágico: o homem não tem nenhum sentido que seja transcendental, é aqui a sua existência e só, e portanto aproveite o máximo aqui, engajando-nos no mundo, mas sem perspectivas “futuras”. Para o existencialismo cristão e para o personalismo, é preciso sim este engajamento, mas que este seja real e com perspectivas de um Ser que é eterno, e não mera tagarelice, como fizeram aqueles outros existencialistas. Esta ação não é um mero saber-fazer, é antes uma ação reflexiva e significativa, pois “a ação pela ação é o caminho aberto para o inumano, sobretudo quando negamos a existência da natureza humana (...) Reagindo contra um idealismo estéril, o existencialismo chegou a negar tôda a essência do homem” .
Assim, após Martin Buber, surge, entre outros personalistas, Emmanuel Mounier. Este é cristão católico engajado nos movimentos eclesiais e na prática do diálogo com a realidade social. Sofreu influência do neotomista Jacques Maritain e do existencialista cristão Gabriel Marcel. Sua intenção foi desmistificar alguns temas tomistas, atualizando-os, assim como Maritain. O pensamento de Tomás de Aquino se continuasse do jeito que estava tornar-se-ia estéril, sendo preciso atualizá-lo, uma vez que a sociedade para qual Tomás escrevia era uma, e a que Mounier vivia era outra, com temas e vivências completamente diferentes. O pensamento daquele era defender a fé diante dos problemas surgidos no período medieval, o pensamento deste era defender a integridade humana, imagem de Deus, em meio ao mundo dilacerado pela Guerra e desesperado de tudo. Desta forma, o pensamento de Mounier mistura tomismo, existencialismo e cristianismo.
Com base em Gabriel Marcel, pensará na pessoa como o não-inventariável, o que não pode ser posto “para fora” como objeto de estudo científico, mas só pode ser entendido de dentro de uma vivência humana. O que é o homem? Só quem o é pode intuir – e não definir – o que é. Diz-nos Mounier:

“Visto que a pessoa não é um objeto que se separe e observe, mas um centro de reorientação do universo objetivo, resta-nos orientar agora a nossa análise para o universo por ela edificado, a fim de iluminar nos seus diversos planos as estruturas, sendo preciso não esquecer que esses planos não são mais que incidências diferentes sobre uma mesma realidade.” (2004: 24-25)

A pessoa humana se manifesta em diversos modos, que são extensões de si mesma, não se deixando aprisionar em nenhuma de suas ações pois transcende sua natureza, não sendo determinada a certas ações, por mais que seja coagida, mas livre diante de todas.

“Tal é a pessoa: encarnada em um lugar, engajada num tempo, e entre os homens. Mas o homem, ser natural, é mais que um ser natural: transcende a natureza. Não se reduz a um conjunto de funções ou de reflexos combinados. Sua transcendência em relação à natureza se afirma por vários sinais: só ele conhece a natureza, só ele a transforma. Mais ainda: é capaz de amar” (MOIX, 1968: 135)

Basicamente, para entendermos, se é que podemos reduzir pessoa a um objeto compreendido, a pessoa de Mounier é uma realidade íntima, que é só dela, encarnada num corpo para a ação prática. Ela possui um quê de segredo, de mistério, fugindo da análise científica. Ela só é compreensiva a si mesma, pois só ela se vive. Ela é dada a si mesma como existente.
Relaciona com os valores, que brotam de si, de sua natureza inefável, gerando uma transpessoalidade, ou melhor, algo que é além da pessoa mesma – é o segredo que traz em si, a imagem de Deus. E se esquecido este segredo, torna a existência pessoal uma verdadeira crise de valores humanos. “Os sintomas dessa crise são: a desordem social, a mudança de valores, as guerras, a desesperança, a divinização da ciência, a prevalência do econômico” .
Urge, então, a necessidade de se pensar a pessoa atuante em uma sociedade, propondo e assegurando seus valores essenciais para se alcançar uma sociedade diferente. É uma pessoa concreta que propõe Mounier.
Parece-nos que não é porque a sua eminente dignidade não é possível de se conhecer que a pessoa deve deixar de agir. Muito pelo contrário, deve fazer com que a sua eminente dignidade, torne-se iminente em meio à sociedade, ao ponto desta dignidade revelar a pessoa. Assim, a sociedade está para a pessoa, e nesta sociedade pessoal, todos os membros são pessoas e devem ser respeitadas para que os valores, frutos da dignidade, sejam postos em prática virtuosamente com a convivência engajada em busca do aperfeiçoamento pleno da pessoa, isto é, em todas as suas realidades de ser, em todos os campos em que vive e atua, sendo regida pelo amor, que não é teorético, mas real. Portanto, o Ser da pessoa é amar, pois só será pessoa enquanto amar praticamente, só existirá realmente, deixando o plano de fundo cinza da existência passando ao protagonismo do Ser, quando amar.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Sim, todo homem é bom!



É fato que vivemos em um mundo estranho hoje. Estamos cheios de tudo que possa ajudar-nos a viver melhor e vivemos cada vez pior. Digo isto em campos econômicos, sociais, políticos, mas principalmente em campos relacionais.
É estranho, mas parece que temos nos amado menos, e com isso a confusão fica armada. Verdadeiras guerras armamos todos os dias e com isso vamos desacreditando em nós mesmos. Passamos pela insegurança e pelo desconforto de sermos homens racionais, porque nossas ações não condizem com aquilo que de fato somos. O que somos mesmo?
Somos homens racionais. Racionalidade esta que não é propriedade nossa, mas que herdamos. Somos racionais porque temos como que centelhas de Deus em nós, justamente por causa desta razão, ou melhor dizendo, desta alma.
Quando vimos que alguém age barbaramente ele é um desalmado, mostrando assim que esta razão está além do simples fato de conhecer, mas se encontra numa esfera valorativa. A alma transcende a faculdade cognoscitiva. Aquele homem não possuía o valor de humanidade.
Agora, se para existirmos precisamos de possuir alma, aquele, a quem chamamos de desalmado, não a possui mesmo existindo? Sim, ele a possui embora não tenha agido segundo a sua realidade. Devido a vários fatores, ele como que amorteceu a sua consciência moral (também faculdade da alma) chegando ao ponto de não mais agir de acordo com a sua natureza.
O erro que podemos encontrar neste caso ao julgarmos o mesmo é que não é que ele seja mal, mas se corrompeu em sua bondade, esta é fruto da imagem e semelhança do homem com Deus. Assim, o mal não é oriundo da natureza humana mas consequência da negação de Deus, enquanto fonte de todo Bem. Consequentemente, o mal, no caso daquele homem acima, é fruto do meio em que vive, meio que está mal também por causa do pecado no homem.
Desta maneira, a melhor forma de se mudar a realidade daquele meio, e por isso mudar o homem que ali vive, e semear o amor. O amor é a fonte transformadora do mal em Bem. Foi por amor que Cristo transformou o que era antes sinal de maldição, a Cruz, em sinal de glória divina. Foi por amor a Deus e a nós, que ele fez. Expulsemos o Mal com a presença do Amor, pois onde há luz não pode haver trevas! Só o amor é capaz de mudar toda a realidade, por isso temos que deixar Deus amar o mundo por meio de nós, homens sedentos deste mesmo amor.

domingo, 20 de junho de 2010


Acreditar no Amor!!!

É a necessidade de todo homem amar. Só é feliz quem ama, e quem ama o próximo pela ótica misericordiosa de Deus. O que se tem propagado por aí, por meio da mídia é que amar é várias outras coisas, menos aquilo que realmente é. O que será amor, então?
Amor é a doação ao outro, desejando-lhe todo o bem, que só pode provir daquele que é Amor. É difícil uma conceituação exata do que é Amor, pois o amor não se prende no campo do conceito, mas transcende-o, chegando ao campo da vivência. Em outras palavras: de amor não se fala, se vive. Vivê-lo, porém e mesclar a estranha alegria com a pungente dor. Estranha alegria de assemelhar-se a Deus pelo amor, pois Ele é Amor. Pungente dor, pois nos deparamos que em determinados momentos, ou o amor é menos do que se deveria, ou que ele vai arrefecendo-se aos poucos.
O amor causa alegria ao homem, porque é pelo amor que ele se aproxima de Deus. Se Deus nos fez a sua imagem e semelhança, e Deus é Amor, somos nós, também, amor. E todas as vezes que não amamos, encontramo-nos tristes, em estado de angústia, de inquietude e vazio é devido ao fato de não estarmos sendo aquilo que de fato somos.
O nosso ser, aquilo que faz com que existamos enquanto pessoas, é o amor. E só consegue amar verdadeiramente aquele que se aproxima do Amor de Deus.
Para amar como Deus, precisamos praticar em nós a saída. A saída de nós mesmos para o mais próximo, o que está ao nosso lado. Foi assi que Deus manifestou à humanidade dando-nos seu Filho Único, que embora sendo de divina condição, não se apegou ciosamente a ser igual em natureza (em Ser) ao Pai, mas fez-se homem. Ou seja, saiu de si e foi ao encontro da ovelha perdida que éramos.
Só conseguiremos amar e sermos felizes quando já não mais estivermos presos em nossas amarras, em nós mesmos. E libertos delas, a vida aqui será prenúncio da Vida Eterna.